Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD): como identificar sinais na escola e apoiar o estudante no Ensino Fundamental

Professor observa sinais de altas habilidades em alunos do ensino fundamental

Quando falamos sobre o tema Altas Habilidades/Superdotação, percebemos que se trata de um assunto complexo e, muitas vezes, cercado de equívocos. Nem sempre conseguimos compreender, de forma clara, seu alcance e seus desdobramentos dentro do processo de ensino-aprendizagem, o que acaba gerando dúvidas e interpretações equivocadas no contexto escolar.

Este texto tem como objetivo trazer o tema para o centro do fazer pedagógico, apresentando alguns de seus principais autores e propondo uma reflexão sobre o papel do professor aprendente na identificação e no acompanhamento dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação.

formação contínua do professor

No cotidiano escolar, é comum que nós, professores, percebamos que algumas crianças apresentam comportamentos, interesses ou formas de aprender que destoam do grupo. Há algo que chama a atenção, algo que parece “diferente”.

Surge, então, a pergunta silenciosa e legítima: “o que será que esse aluno tem?”

Esse questionamento não nasce do desejo de rotular, mas da observação atenta da prática docente. É justamente nesse ponto que o professor aprendente, munido de conhecimento teórico consistente e sensibilidade pedagógica, pode desempenhar um papel fundamental: ajudar o aluno a se reconhecer, a ser compreendido e a encontrar, na escola, um espaço de desenvolvimento e não de frustração.

O que são Altas Habilidades/Superdotação

No contexto da educação brasileira, utiliza-se a terminologia Altas Habilidades/Superdotação para se referir a estudantes que demonstram potencial elevado em uma ou mais áreas, de forma isolada ou combinada, como intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentarem grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (BRASIL, 2008, p. 15).

A Prof.ª Dra Carina Rondini, em seu artigo “Termos, Conceitos e Contextos da Superdotação”, publicado na obra Altas Habilidades Superdotação – Instrumentais para identificação e atendimento do estudante dentro e fora da sala de aula comum, Ed. CRV, apresenta um histórico comparativo entre o caso brasileiro e o caso americano registra que existe um “desassossego terminológico” relacionado à como definir o estudante que se enquadra nessa condição, muito por conta das traduções de termos “importados” de termos norte-americanos. Por conta disso, utilizamos e utilizaremos esta terminologia ao nos referirmos a esses estudantes. 

É importante destacar que não existe um perfil único de aluno com Altas Habilidades/Superdotação. Trata-se de um grupo heterogêneo, cujas características podem se manifestar de formas distintas, em ritmos diferentes e em áreas específicas do desenvolvimento.

Altas Habilidades/Superdotação não é apenas QI alto: compreendendo a teoria de Renzulli

Joseph Renzulli, um dos principais pesquisadores da área, contribui significativamente para a compreensão do que são as Altas Habilidades/Superdotação ao nos colocar diante de um paradigma que precisa ser desconstruído: Altas Habilidades não se associam exclusivamente a um alto quociente de inteligência (QI).

Essa desassociação é fundamental, pois nos permite enxergar além do estereótipo do “gênio”, frequentemente atribuído aos estudantes identificados como superdotados. Uma visão restrita, centrada apenas no QI, desconsidera aspectos essenciais do desenvolvimento humano e empobrece a compreensão sobre esses estudantes.

Os Três Anéis e o comportamento superdotado

Diagrama da teoria dos três anéis de Renzulli sobre altas habilidades
Representação da Teoria dos Três Anéis de Renzulli: habilidade acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa.

Renzulli apresenta uma teoria amplamente reconhecida, conhecida como a Teoria dos Três Anéis, que auxilia na identificação de comportamentos associados às Altas Habilidades/Superdotação. Segundo essa perspectiva, o comportamento superdotado emerge da interação dinâmica entre três elementos:

  • habilidade acima da média;
  • envolvimento com a tarefa;
  • criatividade.

Esses componentes não atuam de forma isolada, mas de maneira integrada. É essa combinação consistente que caracteriza o comportamento superdotado: “aquele que “agrega de forma consistente, elementos dos 3 anéis”. Ainda segundo Renzulli, a superdotação pode se manifestar de três formas: acadêmica, produtivo-criativa e mista (a junção das duas primeiras).

Assim, um estudante pode apresentar elevado potencial criativo sem, necessariamente, demonstrar um desempenho acadêmico tradicionalmente alto, e ainda assim estar dentro do espectro das Altas Habilidades/Superdotação.

Howard Gardner, as Inteligências Múltiplas e as Altas Habilidades/Superdotação

Inteligências múltiplas descritas por Howard Gardner ampliam o olhar sobre o potencial humano.
As diferentes inteligências descritas por Howard Gardner ampliam o olhar sobre o potencial humano.

Outro autor fundamental para o entendimento da Superdotação é Howard Gardner, com sua Teoria das Inteligências Múltiplas. Gardner propõe uma ampliação do conceito de inteligência, compreendendo-a não como uma capacidade única e mensurável, mas como um conjunto diverso de potencialidades humanas.

Essa teoria amplia o horizonte de compreensão sobre o desenvolvimento cognitivo e contribui para superar a ideia pré-concebida de que o estudante superdotado seria apenas aquele com destaque lógico-matemático. As diferentes formas de inteligência, que podem se manifestar juntas ou separadamente ajudam o professor a reconhecer potenciais muitas vezes invisibilizados na escola.

É importante ressaltar que essa teoria não se encerra em si mesma, uma vez que o entendimento sobre a inteligência humana continua em constante ampliação. A partir do contato com esses autores, o professor aprendente pode começar a identificar potenciais que merecem ser valorizados e estimulados em sua prática pedagógica.

O que pode confundir: atenção, comportamento e medicalização

Comportamentos de alunos com altas habilidades podem ser mal interpretados na escola

Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação podem ser equivocadamente identificados como desatentos, opositores ou desinteressados quando, na realidade, estão reagindo a um ambiente pouco estimulante ou insuficientemente desafiador.

Por isso, é fundamental reforçar um princípio ético importante: o professor observa, registra e encaminha; não diagnostica.

Pesquisas apontam que, em muitos contextos, a educação brasileira ainda opera sob uma lógica excessivamente clínica e medicalizante, deslocando para a área da saúde comportamentos que poderiam ser compreendidos pedagogicamente. A falta de formação específica sobre Altas Habilidades/Superdotação contribui para encaminhamentos equivocados e interpretações inadequadas desses comportamentos.

A importância de identificar corretamente as Altas Habilidades/Superdotação

Compreender a importância de uma identificação cuidadosa e responsável das Altas Habilidades/Superdotação é essencial. Muitos estudantes apresentam comportamentos que podem ser facilmente mal interpretados no contexto escolar, especialmente quando há um descompasso entre o desenvolvimento cognitivo e a idade cronológica.

Quando esses sinais não são compreendidos à luz das Altas Habilidades/Superdotação, aumentam os riscos de interpretações equivocadas e de encaminhamentos inadequados, o que pode gerar prejuízos significativos à trajetória escolar e emocional do estudante.

A identificação não se baseia em um único teste ou exame isolado. Ela ocorre a partir de um conjunto de evidências, observações sistemáticas e instrumentos avaliativos conduzidos por profissionais especializados, apoiados em referenciais teóricos consolidados. O objetivo é compreender o estudante de forma ampla, contextualizada e respeitosa.

Nesse processo, o olhar atento do professor é decisivo. É, na maioria das vezes, na sala de aula que surgem os primeiros indícios de Altas Habilidades, a partir da observação do interesse, da criatividade, da forma de pensar e de se relacionar com o conhecimento. Ao registrar e sinalizar esses indícios à equipe pedagógica, o professor contribui para que o estudante tenha seus direitos garantidos e acesso a um acompanhamento adequado.

A não identificação, ao longo do tempo, pode impactar negativamente o desenvolvimento acadêmico, emocional e social do aluno, limitando o pleno desenvolvimento de suas potencialidades.

Como alunos com Altas Habilidades/Superdotação costumam se comportar em sala de aula

Na prática escolar, alunos com Altas Habilidades/Superdotação nem sempre se destacam de maneira evidente. Pelo contrário, seus comportamentos podem ser mal interpretados quando não compreendidos à luz do conhecimento pedagógico.

Em sala de aula, esses estudantes podem apresentar:

Professor observa sinais de altas habilidades/superdotação em alunos do ensino fundamental
  • curiosidade intensa e questionamentos profundos;
  • interesse por temas complexos para a idade;
  • rapidez no raciocínio e facilidade para estabelecer conexões;
  • criatividade incomum na resolução de problemas;
  • alto envolvimento com tarefas que despertam seu interesse.

Segundo Renzulli, quando não encontram desafios adequados, esses alunos podem parecer dispersos, desmotivados ou inquietos, não por falta de capacidade, mas por excesso de potencial pouco explorado. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para transformar a experiência escolar em um espaço de desenvolvimento e pertencimento.

O que diz a legislação brasileira sobre Altas Habilidades/Superdotação

A legislação educacional brasileira reconhece os estudantes com Altas Habilidades/Superdotação como público da Educação Especial, garantindo-lhes o direito ao Atendimento Educacional Especializado (AEE), que deve complementar (e não substituir) o ensino regular.

Esse atendimento tem como objetivos:

  • complementar o ensino regular;
  • promover o enriquecimento curricular;
  • favorecer o desenvolvimento do potencial do estudante.

Cabe à escola, em articulação com a equipe pedagógica e as famílias, criar condições para que esse direito seja efetivado de forma ética, responsável e coerente com a realidade escolar.

O papel do professor aprendente na identificação e no apoio

Professor aprendente reflete sobre práticas pedagógicas inclusivas

O professor é, muitas vezes, o primeiro adulto fora da família a perceber indícios de Altas Habilidades/Superdotação. O olhar atento, aliado ao estudo contínuo, faz toda a diferença.

O papel do professor aprendente envolve:

  • observar comportamentos e interesses de forma sistemática;
  • registrar evidências ao longo do tempo;
  • dialogar com a equipe pedagógica;
  • orientar a família quando necessário;
  • adaptar práticas e propor desafios adequados em sala de aula.

Mais do que acelerar conteúdos, trata-se de enriquecer experiências, respeitando o ritmo, a singularidade e o desenvolvimento integral do estudante.

professor aprendente

Ensinar com atenção, responsabilidade e sensibilidade

Falar sobre Altas Habilidades/Superdotação é falar sobre diversidade humana, sobre diferentes formas de aprender, criar e se relacionar com o conhecimento.

Ao compreender melhor esse tema, o professor amplia seu repertório pedagógico e fortalece sua prática. Ensinar, nesse contexto, exige estudo, reflexão e abertura para aprender sempre, não apenas sobre os conteúdos, mas sobre as crianças e suas múltiplas possibilidades.

A escola pode, e deve, ser um espaço onde o potencial encontra lugar para crescer.

Fontes:

  1. BRASIL, Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, Secretaria de Educação Especial, 2008.
  2. LDB_7ed.pdf – Reconhece e Assegura aos estudantes identificados com altas habilidades ou superdotação, o direito ao atendimento educacional especializado 
  3. L13234 –  Dispõe sobre a identificação, cadastramento e atendimento, na educação básica e na educação superior, de alunos com altas habilidades ou superdotação.
  4. CEB0201.doc – Institui as Diretrizes Nacionais para a educação de alunos que apresentam necessidades educacionais especiais na Educação Básica, em especial o Artigo 5° inc.  III
  5. BRASIL. Lei nº 13.234/2015. Dispõe sobre a identificação, cadastramento e atendimento de alunos com Altas Habilidades/Superdotação.
  6. Renzulli, J. The Three-Ring Conception of Giftedness.
  7. Gardner, H. Estruturas da Mente: a teoria das inteligências múltiplas.

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